O método
Uma escada de família é uma lista de afirmações: «este foi filho daquele», «aquele viveu em tal ano». O método trata cada afirmação como uma peça de uma ponte: antes de lhe pôr peso, mede-se. Usa quatro instrumentos — uma régua, um relógio, uma lupa para as costuras e uma regra de prova. Para cada um, esta página diz o que é, como se usa e mostra a conta feita aos degraus desta escada, para que qualquer pessoa a possa refazer com papel e lápis.
1. A régua: quanto pesa cada degrau
O que é. Cada degrau recebe uma letra, de A a D, conforme a força da prova que o sustenta. É como a nota de um exame: o A tem certidão com dia, mês e ano; o D é apenas o que a família foi contando.
| Nível | Nome | Critério | Degraus | % | Quais |
|---|---|---|---|---|---|
| A | Registo com data completa | nascimento, casamento ou óbito com dia, mês e ano | 4 | 16,7 % | 18.º, 22.º a 24.º |
| B | Data de cargo ou documento citado | um cargo datado ou um documento identificado | 7 | 29,2 % | 14.º a 17.º, 19.º a 21.º |
| C | Narrativa do manuscrito (c. 1610) | contado pelo autor de 1609, sem documento citado | 3 | 12,5 % | 11.º a 13.º |
| D | Tradição sem documento | genealogia herdada, sem prova conhecida | 10 | 41,7 % | 1.º a 10.º |
A prova, passo a passo. 4 + 7 + 3 + 10 = 24 degraus. Cada percentagem é o número de degraus a dividir por 24: por exemplo, 10 ÷ 24 = 0,417, ou seja, 41,7 %. O que a régua mostra: a força da prova cresce à medida que a escada se aproxima de nós. Os degraus D ocupam os graus 1.º a 10.º; os A estão nos graus 18.º, 22.º a 24.º. É o padrão habitual numa genealogia: os registos paroquiais em Portugal só se generalizam no século XVI, e o que vem antes depende de crónicas e da memória. A régua não diz que os degraus D são falsos; diz que ainda não estão provados — e diz exatamente onde trabalhar.
2. O relógio das gerações
O que é. Entre o nascimento de um pai e o do filho passa, em média, um certo número de anos. Um estudo com dados genéticos de 250 000 anos (Wang, Al-Saffar, Rogers e Hahn (2023), Science Advances) mediu a idade média dos pais ao nascimento dos filhos: 30,7 anos. Essa é a régua do relógio.
Como se usa. Divide-se o número de anos de um troço pelo número de passagens de pai para filho que a escada declara. Se o resultado for muito maior do que 30,7, ou faltam degraus, ou os pais tiveram filhos muito tarde — e só os registos dizem qual das duas. A coluna «Diferença» é o número de passagens que faltariam (se positiva) para bater com a média.
| Troço | De → até | Anos | Passagens declaradas | Anos por geração | Passagens esperadas | Diferença |
|---|---|---|---|---|---|---|
| Idade Média | 1.º (Ramiro II começa a reinar, 931) → 8.º (herdade de Garcia, 1296) | 365 | 7 | 52,1 | 11,9 | +4,9 |
| Séculos XVII a XIX | 18.º (nasce a 9-4-1610) → 24.º (nasce a 7-5-1872) | 262 | 6 | 43,7 | 8,5 | +2,5 |
| Dois degraus com certidão | 23.º (nasce a 20-6-1825) → 24.º (nasce a 7-5-1872) | 47 | 1 | 47,0 | 1,5 | +0,5 |
| Linha pública inteira | 1.º (931) → 24.º (1872) | 941 | 23 | 40,9 | 30,7 | +7,7 |
A prova, passo a passo.
- 1296 − 931 = 365 anos. 365 ÷ 7 passagens = 52,1 anos por geração. 365 ÷ 30,7 = 11,9 passagens esperadas. 11,9 − 7 = 4,9.
- 1872 − 1610 = 262 anos. 262 ÷ 6 passagens = 43,7 anos por geração. 262 ÷ 30,7 = 8,5 passagens esperadas. 8,5 − 6 = 2,5.
- 1872 − 1825 = 47 anos. 47 ÷ 1 passagens = 47,0 anos por geração. 47 ÷ 30,7 = 1,5 passagens esperadas. 1,5 − 1 = 0,5.
- 1872 − 931 = 941 anos. 941 ÷ 23 passagens = 40,9 anos por geração. 941 ÷ 30,7 = 30,7 passagens esperadas. 30,7 − 23 = 7,7.
O que o relógio mostra. Na Idade Média, a escada põe 52 anos entre cada pai e filho: obrigaria sete homens seguidos a ter o herdeiro depois dos cinquenta. A explicação mais provável é que faltem cerca de cinco degraus — os genealogistas chamam-lhe telescopagem: a memória guarda os nomes ilustres e deixa cair os do meio. Entre 1610 e 1872, o relógio também anda devagar (44 anos por geração), mas aqui o próprio livro dá uma resposta parcial: entre o 23.º e o 24.º grau, com certidão dos dois lados, passaram 47 anos. O intervalo longo é, em parte, real. O relógio não diz quem falta; diz onde procurar.
O relógio testado contra si próprio. Se a régua fosse 35 anos em vez de 30,7, o troço medieval continuaria a pedir 10,4 passagens (365 ÷ 35) em vez de 7. A conclusão não depende da régua exata.
3. A lupa: as costuras
O que é. Uma costura é o sítio onde duas peças do tecido foram unidas: se o pano rasgar, é por ali que rasga. Na escada, é o ponto onde duas fontes não batem certo, ou onde as datas não cabem numa vida humana.
| Grau | O que não bate certo |
|---|---|
| 10.º | João Lourenço vive em 1325–1367 e o genro serve o Infante D. Henrique (n. 1394): cerca de 70 anos para uma geração. |
| 11.º | Mesmo desfasamento: filho e nora de Vasco Paes Cardozo ligados a figuras do séc. XIV (cerca de um século). |
| 13.º | A mulher (Mécia Vaz) não tem filiação no manuscrito; a camada de 1944 fá-la filha do Conde Palatino. |
| 18.º | A p. 90 admite duas leituras: o chantre da Sé do Porto é ele ou o tio. |
| 19.º | Uma nota de 1952 faz do 20.º grau «4.º neto» de Afonso Rodrigues; a cadeia faz dele 5.º neto. |
| 22.º | Filha legitimada: a legitimação (c. 1800–1810) ainda não foi vista. |
A prova. A costura do 19.º grau cai no mesmo troço em que o relógio anda mais devagar (1610–1872): dois instrumentos diferentes apontam para o mesmo sítio. É por isso o ponto número um a verificar nos registos paroquiais.
4. A regra de prova: quando é que um facto passa a «provado»
A regra. Um facto só passa a «provado» com uma fonte primária vista — a pedra no sítio, o documento original, ou uma publicação oficial que o transcreve — ou com três fontes independentes que concordem. Uma fonte só, por mais antiga, deixa-o em «provável». O que a família conta sem documento fica em «tradição».
| Prova | Fonte | Estado |
|---|---|---|
| Túmulo de Fernão de Freitas e da neta Mécia do Amaral | Pedra no sítio; guia do Museu de Alberto Sampaio | Provado |
| Capela de São Brás, fundada por Álvaro Gonçalves de Freitas | Guia do Museu de Alberto Sampaio | Provado |
| A Capela de São Brás entra na família pelos Laborão | Livro de 1944; vínculo por consultar | Provável |
| Cartela da Capela de Nossa Senhora das Neves | Boletim DGEMN n.º 108 (1962), pp. 12–13 e 18–19 | Provado |
| Escritura de compra da Capela das Neves | Boletim DGEMN n.º 108 (1962), publicação oficial que a transcreve | Provado |
| Escudo partido Amaral · Freitas sobre o arco | Boletim DGEMN n.º 108 (1962) | Provado |
| Carta de brasão de D. João V a Fernando Peixoto do Amaral e Freitas | Livro de 1944, pp. 90, 93; original por consultar | Provável |
| Carta de brasão das armas do Guardal | Livro de 1944; processo por consultar | Provável |
| Manuscrito de c. 1609 sobre os Amarais | Traslado de 1931 no Livro de 1944; original por consultar | Provável |
| Sentença de 14-3-1660 (morgados de Sezim e Casa Nova) | Livro de 1944; sentença por consultar | Provável |
| Livro de Família, datilografado e com os brasões pintados à mão | O próprio volume, auditado no n.º 1 | Provado |
| D. Afonso Hermiges, senhor da quinta de Amaral | Livro de 1944, p. 64; sem documento citado | Tradição |
A prova, passo a passo. 6 provadas + 5 prováveis + 1 tradição = 12 provas. Em cada linha, o estado decorre da coluna «Fonte»: só é «Provado» quando a fonte é a pedra, o documento ou uma publicação oficial vista.
5. Porque é que o método é honesto
Todos os juízos do autor — a letra de cada degrau e a gravidade de cada costura — estão escritos nesta página, para poderem ser contestados e refeitos. Se aparecer um documento novo, a conta refaz-se e a escada muda. Uma escada que nunca muda não é uma escada medida: é uma escada acreditada.
O que é público e o que é da família
A escada pública desce do rei Ramiro II de Leão até ao Coronel Duarte do Amaral e a D. Ana Mendes Ribeiro de Oliveira, uma geração nascida no século XIX e já falecida. A partir dos seus seis filhos, a escada continua no Livro de Linhagem, a área da família.
| Aqui, em público | Na área da família |
|---|---|
| Os graus 1 a 24 e os ramos até à geração de D. Ana | Do 25.º grau em diante: os seis filhos, os netos e os bisnetos |
| Casas e morgados na história documentada | As propriedades de hoje |
| O texto de 1944 e o manuscrito de c. 1609 | As anotações acrescentadas ao livro depois de 1944 |
| Datas, cargos e casamentos com fonte | Saúde, intimidade, imagens e cartas, mesmo de quem já faleceu (Lei n.º 58/2019, art. 17.º) |